Quinta-feira, 15 de Março de 2012
Tinta.
O Azul ganhou outra força. Essa cor mágica que me pintou dias e noites, que dava os últimos acabamentos às historinhas diárias que preenchiam os cadernos vazios. Essa mesma cor que se envolveu nas minhas lágrimas para pintar novos quadros, ou para escrever mais histórias, tão diferentes, com pessoas tão diferentes, com homens-meninos tão diferentes. Histórias Azuis, sem fadas nem dragões, só com uma Mulher e um Homem, tantos homens, que em nada foram felizes para sempre, nem tinham castelos, coroas ou espadas. Tinham apenas Azul. Nos dias que passavam e nas noites onde não dormiam, onde trocavam beijos Azuis, carícias Azuis, sentimentos Azuis. Eram histórias encantadas por aquela tonalidade mediúnica, que tornava cada história, de cada homem, melhor e mais fantasiosa que a anterior. Faziam-me sonhar mais profundamente, infinitamente tendo os limites do mundo como barreiras físicas de um engodo frágil que se podia confundir com uma onda pequena e perdida no oceano; ou com um pedaço de céu entre duas nuvens recortado. Era o Azul que me movia, não eram os homens. Só descobri o poder dessa cor quando tornei a escrever e a tinta já não era Azul. Todas as lágrimas, que encerraram as histórias inacabadas que guardei nas linhas ciânicas que escrevi, haviam secado. A tinta para escrever a nova história ainda estava por descobrir. Talvez no meio da horta ou no prado. Talvez as manchas de terra fresca pudessem substituir as palavras, tão pobres em significados.
Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012
Nada devemos temer excepto as palavras. Essas, fontes interruptas de maus sentidos, que escorrem falcatruas e enganos, como se da mais pura água se tratasse. As palavras não servem para nada, nem para dizer poesia, nem para ler uma notícia. Na cabeça não pensamos as palavras, não estão lá escritas, como subtítulos de um filme mudo. Na cabeça, de olhos fechados, os pensamentos são cor, são som; não são amontoados de letras ordenadas e compostas, que se alinham direitinhas para se comporem para o espectador incauto que assiste ao seu próprio cérebro em acção. Para nada servem elas. Não quero usar mais as palavras para viver; os meus olhos serão as janelas mais claras dos meus desejos, o meu nariz guiar-me-á num melindroso caminho de gentes, de aromas únicos, da Casa que cada um guarda nos poros e que se instala nas pilosidades nasais. Os meus ouvidos só escutarão o silencio, esse tão cheio de ruídos e melodias, que se perdem no meio de demasiadas palavras.
A boca, essa, só servirá para os beijos. Esses são mais ricos que as palavras, que existem no pensamento, na noite e no dia; que vociferam muito mais alto que qualquer ditongo ou onomatopeia estúpida. Para mais não necessito da língua, dos dentes e do maxilar senão para os beijos que dizem, tão simplesmente, o quanto gosto de ti. Sem que palavra alguma interfira no vero sentimento que me envolve em ti.
Contigo nada temo, nem mesmo as palavras.
A boca, essa, só servirá para os beijos. Esses são mais ricos que as palavras, que existem no pensamento, na noite e no dia; que vociferam muito mais alto que qualquer ditongo ou onomatopeia estúpida. Para mais não necessito da língua, dos dentes e do maxilar senão para os beijos que dizem, tão simplesmente, o quanto gosto de ti. Sem que palavra alguma interfira no vero sentimento que me envolve em ti.
Contigo nada temo, nem mesmo as palavras.
Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012
Janeiro.
Janeiro chegou, naquela janela aberta, onde o Sol penetrava docemente, aquecendo o chão poeirento da sala.
Com ele veio o calor de Dezembro, o céu estrelado e a lua cheia.
Janeiro nada deixou para trás, pois todos aqueles dias existiram.
Não foram meros raios de sol, constelações perdidas ou quartos minguantes.
Foi assim, foi uma dança na rua e um abraço apertado.
Fomos nós a chegar com Janeiro no peito.
Com ele veio o calor de Dezembro, o céu estrelado e a lua cheia.
Janeiro nada deixou para trás, pois todos aqueles dias existiram.
Não foram meros raios de sol, constelações perdidas ou quartos minguantes.
Foi assim, foi uma dança na rua e um abraço apertado.
Fomos nós a chegar com Janeiro no peito.
Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011
Autumn Waltz.
A ponta do seu pé descalço deixou de sentir o chão. Foi quando ele a apertou com mais força contra o seu peito, e se pôde misturar com o seu cheiro. As batidas que guardavam dentro de si próprios, sobrepuseram-se ao compasso marcado pela concertina.
Valsavam agora num ritmo único, inimitável, longe daquela madeira suja, cheia de pequenas pedras e de suor. O vazio virou palco, virou pista, infinito. Valsavam num tempo só, infinito. Não estavam mais rodeados de tantos outros corpos em movimento anti-horário.
Não mais sentiam o calor sufocante daquela noite de Outono.
Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011
Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011
Bogart.
Sinto o teu cheiro
Ainda ficou algum
Preso na narina esquerda
De quando me agarraste
Ao me abeirar do infinito.
Chegaste o teu peito quente
Junto à minha orelha
Que te ouviu os ruídos internos
Numa busca insana pela bomba vital.
Terias uma batendo louca
Guardando os segredos
Que eu procurava saber.
Contudo, a orelha mal a ouvia,
ainda que batesse mais rápido
por eu estar ali
a deixar o meu cheiro escondido
na tua narina esquerda.
Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011
Cama.
Era quente o ar que tocava o seu pescoço. O desejo em forma de vento. Tu dormias, não sabias que o desejo se materializava na tua respiração e agora lhe beijava a nuca e os cabelos. Não conseguia adormecer, pois aquele calor era perturbador; aquele vento leve penetrava os seus pensamentos, mais ainda do que o facto de estar deitada ao teu lado. Como se todos os sentidos tivessem adormecido e todo o perpétuo movimento do mundo se centrasse na pele quente do teu pescoço. Tu ainda não sonhavas, pois se o fizesses certamente não estarias tão sossegado, tão perto daquele corpo estranho na tua cama. Os sonhos que costumavas ter não eram nada como a tua respiração. Eram mudos e quedos, difusos. Aquele arfar era o oposto, especialmente porque sabia a ânsia , a paixão. Aquela que o sono trazia, mas que escondias nos sonhos e na Realidade, por não saberes como respirar sem aquele ardor no peito, quando caminhavas sobre a terra das promessas ou pelo mundo onírico da noite. Enquanto isso, os olhos dela fixavam a escuridão, onde devia estar a porta do quarto, a saída daquela dúvida infame que a assombrava de encanto. Não queria que aquele sono começasse ou acabasse. Estava perdida no meio da tempestade tropical que a deixava quente e molhada. Não queria que Tu parasses de respirar, mas ansiava sufocar-te com o desejo que lhe queria saltar dos lábios e ficar contigo naquele para sempre, num vendaval maravilhoso de ensejo e loucura.
Foi quando te viraste para o outro lado e entraste num sonho Azul.
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