Todo e cada indivíduo deste planeta passa, nem que seja por breves instantes, a tormentosa dor de perder alguém. Perder para sempre alguém. Todos passam por aquelas habituées, as costumeiras questões que se resumem ao maldito: "Porquê?"
Não que valha coisa alguma; Deus, ou outro qualquer que se ocupe desta matéria, fará ouvidos moucos a tal desesperada interrogação e fica a dor petulante, saltitando e espezinhando os restos amargurados de quem fez a pergunta estúpida.
Todo o indivíduo sabe que, eventualmente, a hora mais certa da Humanidade chega. Mais; tem a certeza que a dor que a morte carrega consigo, para onde quer que vá, atinge todo e cada ser humano que caminhe, conscientemente, a passos largos, para o seu destino, o mais garantido que alguma vez terá.
Quando chega essa presença, essa dama malvada, porém exímia cumpridora de funções profissionais, a dor é tão grande, tão maior que a certeza, que não há espaço para as duas coabitarem no mesmo coraçãozito, que se torna tão apertado, sumido, acabando uma delas por ceder. E, normalmente, é a certeza. Porque a dor, essa fica para sempre.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Coelho Branco
Hoje senti o teu cheiro
Jamais o poderia esquecer.
Mas senti-lo
Entre as pelosidades nasais
Deixou-me zangada
Como quando me mordias
Quando me tratavas mal.
Deixou-me zangada
Por já não estares aqui
Por não te poder sentir
Não só nos pêlos do nariz
Mas sentir-te quente.
No meu peito,
nas minhas mãos.
Jamais o poderia esquecer.
Mas senti-lo
Entre as pelosidades nasais
Deixou-me zangada
Como quando me mordias
Quando me tratavas mal.
Deixou-me zangada
Por já não estares aqui
Por não te poder sentir
Não só nos pêlos do nariz
Mas sentir-te quente.
No meu peito,
nas minhas mãos.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Como construir um Grito.
Nascemos todos a gritar. É preciso, uma necessidade de sobrevivência inata que rompe os pulmões nos primeiros segundos da existência. Contudo é breve este bradar e rapidamente nos aconchegam no peito materno, retornando ao silêncio que nos manteve confortavelmente resguardados durante os meses de gestação humana.
Assim, no silêncio começamos a crescer, sempre com a meigura das palavras pequeninas, temendo vozes graves que reconhecemos como figuras temerosas e barulhentas; começamos a gostar do embalar em vez da multidão que nos canta o nosso primeiro "parabéns a você...". Esse mar de gente que entoa palavras grandes, melodiosas, assusta qualquer pequeno ser que goste de silêncio, com certeza, será por este motivo, que os bichos do mato não festejam os seus aniversários!
Cresce-se um pouco mais e na nossa vida insignificante despertam em nós caras, cores, palavras. Aqui e ali reina a agitação e a desordem; ninguém se sente efectivamente confortável nesta situação, contudo procura-se ficar por cima: Grita-se. E como que a dizer que chegámos ao mundo para ficar, os pulmões rasgam-se uma vez mais, como no primeiro momento da existência. É legítimo! Queremos só marcar o nosso lugar no compassado movimento do mundo, queremos afirmar uma banal posição à qual ninguém se ousará a opor.
Com o passar do tempo essa posição vai ficando menos vincada; há cada vez mais horizontes para alcançar e mais lugares onde hastear a bandeira; é preciso ganhar espaço e agir... Por isso, grita-se mais um pouco!
Os sentimentos e as pessoas mudam connosco, pelo que os gritos que outrora não passavam de clamores à vida, passaram a ser de comum uso; vandalizados, diria mesmo! Simplesmente o grito tomou o lugar de conversas, de música e de poesia. O grito passou a ser utilizado para vingar, acima de qualquer outro que se nos oponha! A posição fica marcada, é um facto, porém nem sempre vale de muito, pois todos os outros também desenvolveram este culto, este poder; também eles sabem gritar. Não se ganha nada e o grito perde-se no vazio, podendo por vezes acertar em quem menos espera. Inicia-se, deste modo, uma corrente malvada, que encadeia mal-dizeres de um lado com injurias do outro, que se fundem no calão e na disputa verbal. Cada facção puxa cada ponta da corrente bradando cada vez mais alto, procurando forças nos decibeis descompensados, que apenas consomem o fôlego de quem não sabe perder uma causa ou, tão simplesmente, a Razão.
Perde-se, assim, a motivação do grito, porque sem Razão qualquer temível bramido não assada de um assobio do vento, não passa de uma janela que bate, mas não quebra. Cai na indiferença qualquer palavra feia que tenha sido dita ou tenha ficado por dizer.
Sobra somente o eco, uma vibração oca, daquilo que foi grito, daquilo que foi dor. Morre. E com a morte some o grito. Fica só a mágoa de quem por cá, com a Razão toda, ficou.
Assim, no silêncio começamos a crescer, sempre com a meigura das palavras pequeninas, temendo vozes graves que reconhecemos como figuras temerosas e barulhentas; começamos a gostar do embalar em vez da multidão que nos canta o nosso primeiro "parabéns a você...". Esse mar de gente que entoa palavras grandes, melodiosas, assusta qualquer pequeno ser que goste de silêncio, com certeza, será por este motivo, que os bichos do mato não festejam os seus aniversários!
Cresce-se um pouco mais e na nossa vida insignificante despertam em nós caras, cores, palavras. Aqui e ali reina a agitação e a desordem; ninguém se sente efectivamente confortável nesta situação, contudo procura-se ficar por cima: Grita-se. E como que a dizer que chegámos ao mundo para ficar, os pulmões rasgam-se uma vez mais, como no primeiro momento da existência. É legítimo! Queremos só marcar o nosso lugar no compassado movimento do mundo, queremos afirmar uma banal posição à qual ninguém se ousará a opor.
Com o passar do tempo essa posição vai ficando menos vincada; há cada vez mais horizontes para alcançar e mais lugares onde hastear a bandeira; é preciso ganhar espaço e agir... Por isso, grita-se mais um pouco!
Os sentimentos e as pessoas mudam connosco, pelo que os gritos que outrora não passavam de clamores à vida, passaram a ser de comum uso; vandalizados, diria mesmo! Simplesmente o grito tomou o lugar de conversas, de música e de poesia. O grito passou a ser utilizado para vingar, acima de qualquer outro que se nos oponha! A posição fica marcada, é um facto, porém nem sempre vale de muito, pois todos os outros também desenvolveram este culto, este poder; também eles sabem gritar. Não se ganha nada e o grito perde-se no vazio, podendo por vezes acertar em quem menos espera. Inicia-se, deste modo, uma corrente malvada, que encadeia mal-dizeres de um lado com injurias do outro, que se fundem no calão e na disputa verbal. Cada facção puxa cada ponta da corrente bradando cada vez mais alto, procurando forças nos decibeis descompensados, que apenas consomem o fôlego de quem não sabe perder uma causa ou, tão simplesmente, a Razão.
Perde-se, assim, a motivação do grito, porque sem Razão qualquer temível bramido não assada de um assobio do vento, não passa de uma janela que bate, mas não quebra. Cai na indiferença qualquer palavra feia que tenha sido dita ou tenha ficado por dizer.
Sobra somente o eco, uma vibração oca, daquilo que foi grito, daquilo que foi dor. Morre. E com a morte some o grito. Fica só a mágoa de quem por cá, com a Razão toda, ficou.
sábado, 24 de setembro de 2011
A Viagem do Elefante
"Costuma-se dizer que as paredes têm ouvidos, imagine-se o tamanho que terão as orelhas das estrelas."
José Saramago
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Quiosque.
Um dia peguei em Ti
E escrevi-te
Numa folha em branco
Salpicada de café.
Era de manhã,
Como deves ter percebido
E nada mais poderia fazer.
Aquele dia já estava perdido
Para Ti
Naquele papel
Um insignificante risco
Preto
Adornado e confuso,
sem começo e sem fim.
Como tu.
Ali ficaste
Para que todos te lessem
Qual ordinária notícia
No jornal de Domingo.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
D. Sebastião.
Agora estou apenas vazia. Já não há tristeza, finalmente a épica luta contra as recordações que teimavam em investir ferozmente terminou! Já não me lembro de Ti. Descobri isso quando procurei nos despojos de guerra um último beijo ou um último sorriso sincero. Não estavam lá, nem debaixo das carcaças apodrecidas do prazer e do amor-próprio. Talvez tivessem sumido com o nevoeiro, também! Assim não voltarão para atormentar um novo dia glorioso e puro, envolto em paz!
Ainda assim, no meio de tanta harmonia desfeita, nos escombros sorridentes do cataclismo sentimental mais tenebroso de toda uma era histórica, eu, que hasteei a bandeirola branca, fiquei, finalmente, vazia.
Mais do que em paz, mais do que descansadinha, fiquei sem coisa alguma para sentir. Nem o som da tua voz zangada. Vazio, onde ecoa somente a minha voz e as memórias tormentosas que não revelam vestígios do que foste. Bem procuro batalhar um pouco, indagar num confronto com escudeiros, cavalos, obstáculos indiferentes que não me oferecem resistência alguma. Anseio neles bater com força, berrar bem alto e soltar tudo aquilo que não levaste contigo quando desapareceste! Procuro preencher-me de vida, de outras vidas, para que o vazio não se pareça tanto contigo.
Ainda assim, no meio de tanta harmonia desfeita, nos escombros sorridentes do cataclismo sentimental mais tenebroso de toda uma era histórica, eu, que hasteei a bandeirola branca, fiquei, finalmente, vazia.
Mais do que em paz, mais do que descansadinha, fiquei sem coisa alguma para sentir. Nem o som da tua voz zangada. Vazio, onde ecoa somente a minha voz e as memórias tormentosas que não revelam vestígios do que foste. Bem procuro batalhar um pouco, indagar num confronto com escudeiros, cavalos, obstáculos indiferentes que não me oferecem resistência alguma. Anseio neles bater com força, berrar bem alto e soltar tudo aquilo que não levaste contigo quando desapareceste! Procuro preencher-me de vida, de outras vidas, para que o vazio não se pareça tanto contigo.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
A Velha.
Uma sucessão de imagens. É a luz no canto escuro da sala.
Não se ouve som algum além da ventoinha que corta brutalmente o vento quente de Agosto, que entra pela janela aberta. Ela continua a olhar o negro da noite. A parede vazia, onde outrora pendia o quadro que ele pintara naquela mesma sala; uma outra janela que lhe alegrava o dia, tornando-o Azul. Assim, como todos os oceanos, que se partem e recuam na costa, tendem a ser. Mesmo que numa pequena janela de tela amarelecida pelos anos que a viram virgem e pura, na esperança matrimonial pelas tintas, que a guiariam pela mão no mundo real. Num mundo de casas cheias de luz, onde faltam janelas de sonhos.
Porém, ela não ouve o bater das ondas, nem sente o cheiro da maresia pela manhã, que se libertava da pequena janela. Paira no ar o cheiro da roupa velha, das porcelanas empoeiradas, dos remédios que se acumulam na cómoda suja. Já não precisa de sonhar a esta hora, naquele dia, naqueles dias. Basta-lhe encher a cabeça, mergulhando na luz que emana do canto da sala, da televisão.
domingo, 14 de agosto de 2011
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