quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Cama.

Era quente o ar que tocava o seu pescoço. O desejo em forma de vento. Tu dormias, não sabias que o desejo se materializava na tua respiração e agora lhe beijava a nuca e os cabelos. Não conseguia adormecer, pois aquele calor era perturbador; aquele vento leve penetrava os seus pensamentos, mais ainda do que o facto de estar deitada ao teu lado. Como se todos os sentidos tivessem adormecido e todo o perpétuo movimento do mundo se centrasse na pele quente do teu pescoço. Tu ainda não sonhavas, pois se o fizesses certamente não estarias tão sossegado, tão perto daquele corpo estranho na tua cama. Os sonhos que costumavas ter não eram nada como a tua respiração. Eram mudos e quedos, difusos. Aquele arfar era o oposto, especialmente porque sabia a ânsia , a paixão. Aquela que o sono trazia, mas que escondias nos sonhos e na Realidade, por não saberes como respirar sem aquele ardor no peito, quando caminhavas sobre a terra das promessas ou pelo mundo onírico da noite. Enquanto isso, os olhos dela fixavam a escuridão, onde devia estar a porta do quarto, a saída daquela dúvida infame que a assombrava de encanto. Não queria que aquele sono começasse ou acabasse. Estava perdida no meio da tempestade tropical que a deixava quente e molhada. Não queria que Tu parasses de respirar, mas ansiava sufocar-te com o desejo que lhe queria saltar dos lábios e ficar contigo naquele para sempre, num vendaval maravilhoso de ensejo e loucura.
Foi quando te viraste para o outro lado e entraste num sonho Azul.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Preciso de uma sola de sapato, para tocar o chão negro da noite. Não quero calcar as estrelas, que me picam os pés! Que nenhum doce passo de dança me traga de novo à terra molhada; não quero descer, nunca mais!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

L'amour.

Um beijo e um queijo
que ele trazia debaixo do braço
Quando descia a calçada
para a ver sentada
Num cafézinho simpático
Com toalhas xadrez
A esvoaçar na esplanada.
Na quina de uma rua qualquer
Num quadrado de casas
Alinhadas sobre a hipotenusa
Daquela cidade mágica
Que era Paris.

A Paris dos olhos fechados,
dos auscultadores nos ouvidos
Berrando
Concertinas baratas
Cantando
Melodias suaves.

A Paris que me pediste
Quando te trouxe um queijo
E aquele beijo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Cromos para troca.

Quero uma tristeza
Uma pequena, para mim.
Daquelas rápidas de empacotar
Só para voltar a sentir
E ir embora.
Remexi no arrumo escuro
Em busca de alguma esquecida
Só encontrei pedaços,
tristezas carcomidas,
desencantos podres.
Nada que me deixasse infeliz.
Só réstias de prantos mal calados.
Algumas lágrimas sacudidas
Tristeza inteira,
Composta Completa
Bruta,
carregada de pesar
Não mais consegui achar.

Tenho dias banais a mais,
Alguém quer trocar?

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O Deus das Pequenas Coisas

"Quando Khubchand, o seu amado rafeiro de dezassete anos, cego, calvo e incontinente, decidiu encenar uma morte lenta e miserável, Estha cuidou dele durante essa provação final como se a sua própria vida dependesse disso. Nos últimos meses de vida, Khubchand, que tinha a melhor das intenções e a pior das bexigas, arrastava-se até ao janelo aberto na parte inferior da porta para lhe dar acesso ao quintal, empurrava-o com a cabeça e urinava tremulamente um líquido amarelo brilhante do lado de dentro. Depois, com a bexiga vazia e a consciência limpa, erguia para Estha os olhos verdes opacos que pareciam poças escumosas incrustadas no seu crânio grisalho, e cambaleava de regresso à sua almofada húmida, deixando marcas molhadas no soalho. Quando Khubchand estava a morrer na sua almofada, Estha podia ver a janela do quarto reflectida nos testículos lisos e púrpura do cão. E o céu mais além. E, uma vez, um pássaro cruzando-o em pleno voo. Para Estha - impregnado do cheiro de rosas vermelhas, ensanguetado pela lembrança de um homem despedaçado - o facto de algo tão frágil e tão insuportavelmente delicado ter sobrevivido, de lhe ter sido consentido existir, era um milagre. O voo de um pássaro reflectido nos testículos de um cão velho. Fazia-o sorrir com um sorriso aberto."

Arundhati Roy

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Aquece-me.

Corri para ti. Como tantas outras vezes. De braços bem abertos, esperando o calor que vulgarmente me envolvia. Por vezes esse calor arrepiava-me, fazia-me corar e fazia-te sorrir. Por vezes rias e eu corava mais ainda. Era bonito, tornava-nos pequeninos, como duas crianças que se arreliam depois de uma tarde de brincadeira, suados e plenos.
Quando era menina não abraçava ninguém. O calor nada me dizia. Era má. Gostava de ratos e de chuva. Nunca fui uma princesa grega, ria-me dessas moçoilas bem postas que se aqueciam no ouro e nas tintas brilhantes que as adornavam. Cresci no frio, e no frio me fiz Mulher.
Quando tu surgiste foste um fogo que me queimou de imediato. Senti a pele a rasgar, o sangue a afluir à carne crua que tocavas e espalhar-se no chão, deixando um rasto de loucura por onde passei desse dia em diante.
Ensinaste-me o calor. Contigo soube o que era o suor, quando na minha cama me achei sobre o imenso sal, que me banhava as costas nuas.
Essa dicotomia, gelo e calor unos em ti e em mim, fazia-me ansiar a tua presença, o teu toque.
Continuei a correr e, quando me lancei às chamas, caí. Não eras tu que lá estavas, e o gelo daquela pele cinzenta não me envolveu, deixando-me, simplesmente, cair.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Coelho Branco II

Todo e cada indivíduo deste planeta passa, nem que seja por breves instantes, a tormentosa dor de perder alguém. Perder para sempre alguém. Todos passam por aquelas habituées, as costumeiras questões que se resumem ao maldito: "Porquê?"
Não que valha coisa alguma; Deus, ou outro qualquer que se ocupe desta matéria, fará ouvidos moucos a tal desesperada interrogação e fica a dor petulante, saltitando e espezinhando os restos amargurados de quem fez a pergunta estúpida.
Todo o indivíduo sabe que, eventualmente, a hora mais certa da Humanidade chega. Mais; tem a certeza que a dor que a morte carrega consigo, para onde quer que vá, atinge todo e cada ser humano que caminhe, conscientemente, a passos largos, para o seu destino, o mais garantido que alguma vez terá.
Quando chega essa presença, essa dama malvada, porém exímia cumpridora de funções profissionais, a dor é tão grande, tão maior que a certeza, que não há espaço para as duas coabitarem no mesmo coraçãozito, que se torna tão apertado, sumido, acabando uma delas por ceder. E, normalmente, é a certeza. Porque a dor, essa fica para sempre.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Coelho Branco

Hoje senti o teu cheiro
Jamais o poderia esquecer.
Mas senti-lo
Entre as pelosidades nasais
Deixou-me zangada
Como quando me mordias
Quando me tratavas mal.
Deixou-me zangada
Por já não estares aqui
Por não te poder sentir
Não só nos pêlos do nariz
Mas sentir-te quente.
No meu peito,
nas minhas mãos.