Hoje escrevo para Ti.
Após meses de intensas reflexões, de muitas lágrimas, de imensos mergulhos em mágicas recordações, de um olhar para lá de nós, é para Ti que hoje escrevo.
Não é todos os dias que encontramos na nossa vida pessoas como aquela que Tu eras para mim. Eras tudo.
Foste como um Sol, quente e reconfortante, que surge por de trás das nuvens depois da assombrosa tempestade. E foi na minha inocência que atravessei uma temível loucura de ventos e chuva, que me abalou, que me deixou ir bem ao fundo, mas, e graças a Ti, meu Sol, não me afogou.
Foste o Sol que me aqueceu, foste o barco que me levou para terra firme, foste o meu porto seguro. O Teu ser foi realmente importante para me recompor, de tal forma que me tornou uma outra pessoa; uma pessoa mais forte, mais segura, diferente. Talvez mais feliz.
Quando recuperei todos os sentidos (e descobri outros mais) foi nas tuas mãos, nos teus lábios, nos teus olhos que me moldei. Fiz-me uma pessoa bonita. Sentia-me leve na minha condição de amante, pois, na relação, que tão perfeitamente íamos construindo, eu não tinha qualquer preocupação, qualquer responsabilidade. Limitávamo-nos a viver um dia de cada vez, sem notar o passar das horas, o murmúrio das vozes. Como tenho saudades dessa despreocupação desmedida. Passávamos horas, nos nossos modestos esconderijos, entregues aos braços, aos beijos, aos toques. Todas as palavras eram personificadas, o silêncio fazia-nos penetrar na imensidão das nossas almas, que, em certos momentos, deixavam de nos pertencer para se unirem numa só; mais brilhante que a nossa própria felicidade.
Não importava o lugar quando estava contigo. Quer fluíssemos entre ondas do mar, entre peixinhos de rio, entre estrelas da noite, entre suaves lençóis, não importava nada mais, a não ser nós.
E era com as Tuas modestas declarações de sentimentos que eu me ia envolvendo, era nelas que eu pensava, para me reconfortar. Reconfortar?! Quase não precisava! A perfeição da minha vida levava-me a nunca baixar os braços, a nunca pensar nas coisas menos boas. Fazia-me, simplesmente, desejar mais e mais de Ti, meu Sol. Pois eras Tu, que tornavas tudo tão equilibrado; tão certo. Assim, além da nossa relação, construí também um mundinho, só meu. Nesse mundo, agora tão perdido; tão longe, nada nem ninguém me magoava. Sentia-me no topo da montanha mais alta, no altar mais sagrado. A tua figura era constante nesse meu espaço. Como um fantasma, deambulavas por mim e davas-me o maior de todos os motivos para sorrir.
Hoje recordo conversas. Assuntos disparatados, conversas sérias, piadas, provocações deliciosas, perguntas constrangedoras, canções, segredos. Nunca faltavam entre nós as palavras. Até mesmo nos momentos mais delicados, mais assustadores, sorriamos e estas deslizavam das nossas bocas sem que déssemos conta. E, mesmo quando a distância era mais forte, não hesitávamos em escrever mensagens, ainda que singelas, tão cheias de nós próprios, que quebravam a temível barreira física que nos separava.
Foi contigo, meu Sol, que vivi momentos plenos, os primeiros da nossa existência. Uma partilha de emoções complexa, que nos uniu magicamente, na dita plenitude dos nossos seres. Foi, talvez, num simples momento, que eu descobri que eras Tu, meu Sol, aquele verdadeiro Amor. Perdi assim o medo de sentimentos verdadeiros, e nunca antes as palavras: “Eu amo-te” tiveram um significado tão verdadeiro.
Não pensava no fim, pois tal conto de fadas parecia-me infinitamente perfeito. NADA estava errado. NADA adivinhava o hediondo futuro que estávamos destinados a ter. NADA me fez crer que os sentimentos haviam mudado.
Mas, Acabou. Sem dar conta. O mundinho meu ruiu; num assombroso escombro sem fantasmas, sem espíritos, sem almas. O equilíbrio, o perfeito balanço, deixou simplesmente de existir. As minhas palavras ecoavam num vazio, num silêncio incómodo. Não havia mais toques, mais sorrisos, mais segredos, mais lugares mágicos e bonitos. No Teu lugar, existia somente uma negra sombra do que havias sido em mim.
Fiquei perdida em perguntas, às quais evitavas responder. Fiquei sozinha num outro espaço, do qual tu fugias fugazmente. Fiquei sem saber o que fazer.
Ainda hoje me perco em perguntas e em memórias. Começo a descobrir que é possível viver sem ti. Ainda que a dor continue a incendiar o meu ser, ainda que a Saudade me queira afogar, EU não o permito. Só, magoada, ferida, madura, já nada inocente, revoltada, aprendo todos os dias a lidar com os dias de chuva. Pois na minha vida a tormenta já se instalou novamente. E desta vez, não haverá um novo sol para me dar as esperanças de um futuro solarengo. Ás margens me vou apoiando. E longe de Ti, meu Sol, descubro como são as noites tenebrosas, as tempestades e as nuvens cinzentas. Sei que não voltarás, mas a esperança que me ensinaste a ter, que deixaste em mim, não sei se, mesmo com toda a chuva, se apagará. Talvez um dia, num outro futuro, num outro mundo.
Porque em dias mais doentios e cinzentos, ainda te espero, a Ti, meu Sol, entre os escombros, na solidão da tua sombra, mergulhada, mas não afogada, nas recordações do que um dia fomos nós; o Céu.
Hoje escrevo para ti.
Sem comentários:
Enviar um comentário